Se você estiver em frente a um hospital e uma senhora lhe abordar e pedir: “Por favor, você pode chamar um Uber pra mim? Preciso ir em casa pegar roupas para o meu neto que está internado, mas a bateria do meu celular acabou. Eu te dou o dinheiro agora mesmo”.

Como você reagiria?

E se após o teatro, restaurante ou qualquer outro passeio, você estiver esperando seu carro chegar e uma gestante, bem vestida, pedir algo parecido: “Moça, preciso ir pra casa, mas não consigo sinal de jeito nenhum. Você pode pedir  um Uber do seu celular e eu te dou o dinheiro”?

O que você faria?

Ambas as situações e personagens parecem estar acima de quaisquer suspeitas, não é verdade?
Infelizmente, não é bem assim. Fique atento a este novo golpe. Estas pessoas, aparentemente inofensivas, fazem parte de uma quadrilha. No meio do caminho ou já no destino indicado, encontrarão seus comparsas que irão render e assaltar o motorista.

Conversamos com um motorista que, compreensivelmente, preferiu que preservássemos o seu nome. “Os golpistas ficam próximos a hospitais, supermercados; são principalmente senhoras e mulheres grávidas para comover mesmo. Alegam que estão sem bateria ou sem internet e pedem para alguém chamar um Uber para elas. Aí a pessoa se sensibiliza com a situação e acaba querendo ajudar, por humanidade. Mas aí o que acontece: estas golpistas adentram o veículo e alguns quarteirões depois pedem para o motorista parar para pegar um neto, sobrinho, filho, namorado que, na realidade, é um ladrão que vai entrar no carro e assaltar o motorista”, contou.

Ele nos disse, também, que este crime tem sido aplicado especificamente com a Uber, o que não é demérito ao aplicativo. Ao contrário, por ser uma das plataformas mais exigentes em termos de segurança, os criminosos precisaram ser criativos. “Há empresas em que, com um CPF qualquer, sem muita burocracia, já é possível chamar um carro. Os marginais compram um chip e aplicam golpes com facilidade. Já a Uber exige mais detalhes, como conta em banco, cartão de crédito, um endereço de e-mail antigo, tornando a situação mais difícil para o golpista. Então, eles começaram a agir desta forma, usando uma pessoa idônea para pedir o carro e dificultando que a plataforma consiga fazer alguma coisa”.

Os bandidos deixarão poucos rastros dificultando a investigação por parte das autoridades policiais também.

E o que pode acontecer com você, caso tenha chamado o veículo para os criminosos?

Lembre-se: você pediu o carro, a empresa fornecerá seus dados às autoridades competentes e, inicialmente, as investigações o apontarão como suspeito, ainda que o motorista não o reconheça.

O objetivo deste texto não é entrar em debate mais amplo sobre as penas previstas, mas para o crime de roubo, art. 157 do Código Penal, são, no mínimo, 4 (quatro) anos.

E se a situação terminar de maneira ainda mais trágica?

Recentemente, em um intervalo de duas semanas na Grande São Paulo, cinco motoristas foram assassinados.

Imagine seu nome envolvido em um crime de latrocínio, que é o roubo seguido de morte, também previsto no art. 157, § 3º, II do Código Penal, cuja pena mínima é de 20 (vinte) anos.

Você poderá ser preso em flagrante e se ver em uma situação bastante delicada de precisar provar sua inocência em um processo criminal que pode levar anos e gerar desgaste emocional e prejuízo financeiro a você e sua família.

Acredito muito que, em uma situação como esta, a vítima consiga provar sua inocência, mas é preciso ter em mente que há uma remota possibilidade de isto não acontecer. Ainda que não seja preso, responder a um processo penal, seja por roubo ou roubo seguido de morte, será muito danoso em todos os aspectos.

É com pesar que, ao expor este golpe, eu cause algum tipo de desconfiança. Talvez, corramos o risco de não ajudar pessoas que realmente precisem, mas, como diz um velho ditado: “o seguro morreu de velho”.

Os próprios aplicativos, em seus termos de uso, alertam ao usuário que ele é o único responsável pelo uso e definem regras claras sobre a cessão da conta a terceiros. Destacamos um trecho do contrato da Uber como referência:

CONDUTA E OBRIGAÇÕES DO USUÁRIO.

“O Serviço não está disponível para uso para indivíduos menores de 18 anos. Você não poderá autorizar terceiros(as) a usar sua Conta, você não poderá permitir que pessoas menores de 18 anos recebam Serviços de transporte ou logística de Prestadores Terceiros, salvo se estiverem em sua companhia. Você não poderá ceder, nem de qualquer outro modo transferir, sua Conta a nenhuma outra pessoa ou entidade…”

O Tudo Golpe aproveita o espaço para deixar um questionamento à Uber feito pelo motorista já citado na reportagem:

“Quem sabe por meio desta divulgação nós, motoristas, não conseguimos uma melhoria que muitos de nós têm reivindicado, mas sem respaldo da Uber. A nossa foto é divulgada para o passageiro, nossos dados também são divulgados, mas a foto do passageiro não é divulgada para o motorista. Isso seria muito importante porque teremos a certeza de que é realmente o dono do aplicativo que está pedindo, de que ele realmente está ligado ao banco de dados da plataforma. O que não dá é para continuar deixando a cabeça dos motoristas a prêmio”.

Reverbero a pergunta: por qual razão o motorista não tem acesso aos dados do usuário com sua foto? Se alguém souber responder, por favor, deixe nos comentários.

Fica a minha recomendação: não empreste sua conta de usuário de aplicativo para pedir um carro para estranhos. Aliás, não o faça também para empréstimo de bicicletas e patinetes. Já presenciei crianças pedindo a terceiros que desbloqueassem alguns destes veículos.

Negue porque é o que determina a regra dos aplicativos e principalmente porque é o mais seguro para você.