Assassinato de Geraldo Íris Gontijo, 50 anos, reacendeu, nesta semana, debate da falta de segurança nas viagens de aplicativo

A sensação de vulnerabilidade de motoristas de aplicativo, ao deixar que uma pessoa desconhecida entre no carro, voltou a aumentar após o brutal assassinato de Geraldo Íris Gontijo, 50 anos, encontrado sem vida dentro do porta-malas do carro, na última terça-feira (12/1). Os exemplos que se repetem fazem com que vários desses trabalhadores optem por mudar de ramo e tentem algo menos perigoso.

Um desses ex-motoristas é Joanderson Borges, 29. Ele passou dois anos e meio rodando por meio de aplicativos de transporte no DF. Chegou a acumular mais de 7 mil corridas, mas preferiu parar no fim do ano passado. “As ameaças que acontecem com os motoristas, só a gente que sabe. Infelizmente não temos apoio nenhum”, lamenta.

Joanderson conta que foi aprendendo a rodar no DF aos poucos. No começo, relembra, aceitava qualquer corrida. “Depois fui conhecendo outros motoristas que me disseram para não andar pelas quadras ímpares de Samambaia e o Porto Rico, em Santa Maria, que para mim é o pior”, revela

Foi em Santa Maria, inclusive, que ele passou o maior susto nos dois anos em que atuou no ramo. “Era uma corrida que chamaram na rodoviária do Gama. Dois caras entraram e eu já achei meio suspeito, mas fui conversando com eles”, relata.

A conversa fluiu, mas o destino ainda deixava Joanderson apreensivo: era o local conhecido como Faixa de Gaza, entre as quadras 204 e 206 da cidade. “Quando estávamos chegando lá, disseram que iam me assaltar, mas como eu fui ‘de boa’, me deixaram ir. Mostraram até a arma”, relembra, ainda assustado.

Foi um susto que tirou qualquer possibilidade de continuar rodando. Joanderson decidiu focar apenas na loja de calçados que tem, e deixar o complemento de renda de lado. “Meus familiares pediram muito para eu parar. Infelizmente, nós, motoristas, estamos de mãos atadas. Temos pouca informação de quem estamos levando e acontece isso”, lamenta.

Mais um caso de vulnerabilidade fez outro motorista desistir de continuar rodando. Desta vez, aconteceu com Jetro Natan Melo, 27. Logo no início de 2019, ele pegou uma corrida com uma travesti no final da Asa Norte e deveria ir até o Riacho Fundo I. “Ela pediu em dinheiro e ainda mandou a gente parar em Taguatinga antes. A conversa dela foi muito estranha”, lembra.

A passageira perguntou insistentemente sobre a possibilidade de ele ter algum dinheiro no carro e o celular também chamou a atenção. “‘Esse celular ia combinar muito comigo’, ela dizia. Depois começou a falar que usava droga…”

Chegando no destino final, Natan se viu em uma rua sem saída. Ele logo manobrou para ficar de frente para o lugar que poderia voltar, mas acabou sentindo um canivete no ombro. “Ela pediu dinheiro e eu disse que não tinha. Então ela pediu o celular. Disse até que eu poderia ficar com o chip. Foi aí que aconteceu o milagre”

Quando Natan tirava o chip do celular, ele viu uma viatura da Polícia Militar passando logo à frente. Ele não pensou duas vezes e saiu correndo do carro. “Saí gritando e eles voltaram, só que, no momento em que eu fui até a esquina e voltei com eles, a travesti já tinha ido embora”, diz.

Desamparo

Para ele, tão ruim quanto o caso, foi a assistência que recebeu da empresa de aplicativo após o ocorrido. “Disseram que não podiam fazer nada. Só deram o dinheiro da minha corrida e ainda descontaram a parte deles”, lembra. Desde então, Natan preferiu virar motorista particular. “Só cliente fechado e contrato assinado”, conta.

Devido a essas e outras histórias de violência que Marcus Roberto Ribeiro, 45, também anuncia que vai desistir das corridas. No próximo dia 28, o seguro de veículo de aplicativo dele vence e já avisou que irá renovar como carro de passeio. “Depois disso, eu não rodo mais. Minha esposa e minhas filhas ficam me mandando essas notícias do que acontece, eu não posso ser a próxima vítima. São três filhas para criar”, explica.

Até mesmo o pai dele, de 79 anos, já tem feito apelos para que a carreira seja abandonada. “Ele fica vendo na TV e comenta. Oferece uma ajuda para eu abrir um negócio meu. É muita gente falando comigo e acho que isso deve ser um sinal de Deus”, pondera.

Marcus diz que até gosta de dirigir, conhece pessoas interessantes nas corridas, mas o medo é maior.

“Minha vida em primeiro lugar. Nos aplicativos, estamos à mercê dos bandidos. A gente tem que mostrar a cara, tirar foto e tudo, já os passageiros não fazem nada disso”, lamenta.

Mais ação do governo e apps

Para Manuel Scooby, representante do movimento dos motorista no DF, existem diversas ações que deveriam ser feitas, seja pelos aplicativos, seja pelo governo, que garantissem maior segurança a quem dirige. “O principal é o reconhecimento facial. Por mais que obrigue o uso do cartão de crédito, qualquer um pode chamar para qualquer um. Se tira uma foto ali da pessoa, bandido nenhum vai querer mostrar a cara”, argumenta.

Outra necessidade é que os aplicativos financiem as câmeras dentro dos carros, para que a corrida seja gravada. “Precisa de uma central de monitoramento com o botão do pânico. Na hora já vão saber o que está acontecendo, monitorar e ter uma resposta rápida”, comenta.

Segundo ele, o movimento vem trabalhando por um novo projeto de lei a ser apresentado na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF)O primeiro acabou sendo vetado pelo governado Ibaneis Rocha (MDB). “Estamos em diálogo com o Daniel Donizet [PSDB], que apresentou a primeira proposta, e queremos ter a aprovação dessa vez”, explica.

O que dizem Uber e 99

Procuradas, as duas principais plataformas de transporte por aplicativo que atuam no DF informaram as medidas de segurança que têm tomado para evitar crimes como o cometido contra Geraldo.

99 informou que segurança é uma prioridade para a empresa. “Como formas de prevenção antes das chamadas, a companhia mostra aos motoristas informações sobre o destino final, a nota do passageiro e se ele é frequente – além de exigir que todos os passageiros incluam CPF ou cartão de crédito.”

Outra possibilidade, segundo a empresa, é um serviço de monitoramento por meio das câmeras de segurança embarcadas nos carros, que conta com um serviço de monitoramento 24h e oferece apoio imediato para o condutor, caso ele se sinta em situação de risco. Outros recursos são a gravação de áudio, monitoramento da corrida via GPS, compartilhamento de rotas com parentes e amigos e um botão para ligar direto para a polícia. “Depois das viagens, a 99 conta com central de segurança, formada por mais de 150 especialistas, que trabalham 24 horas por dia e 7 dias por semana, oferecendo atendimento humanizado e suporte para qualquer necessidade.”

Por fim, o aplicativo disse que “está aberto ao diálogo com motoristas parceiros e poder público para construir soluções benéficas e que aprimorem a segurança da plataforma”.

Já a Uber diz que “está sempre buscando, por meio da tecnologia, fazer da sua plataforma a mais segura possível”. Segundo a empresa, ela já exige hoje do usuário que quiser pagar somente em dinheiro a inserção do CPF e data de nascimento, dados que são checados na base de dados do Serasa.

A informação sobre essa opção de pagamento também é exibida na tela do aplicativo de quem está atrás do volante, antes que o usuário entre no carro, assim como a região do destino final e a nota do usuário no aplicativo.

Além disso, a Uber diz utilizar um recurso que usa algoritmos para bloquear as viagens consideradas potencialmente mais arriscadas, a menos que o usuário forneça detalhes adicionais de identificação. Ainda é possível cancelar viagens por motivos de segurança.

Durante a viagem, a Uber pode iniciar uma checagem e enviar uma mensagem para o motorista e o usuário perguntando se é necessário algum suporte se perceber alguma demora. Há também o botão Recursos de Segurança, que reúne todas as funções dessa modalidade a plataforma, inclusive a gravação de áudio.

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