Escolhido por Witzel para liderar a política de abate a criminosos, futuro secretário da PM é instrutor de Educação Física

Nas reuniões de transição da nova cúpula da Polícia Militar, o treinamento de snipers não é prioridade. A promessa de abater criminosos com fuzis, feita pelo governador Wilson Witzel logo após ser eleito, está longe do horizonte do próximo comandante da PM, que será alçado a secretário com a extinção da Secretaria de Segurança. A maior preocupação do coronel Rogério Figueredo de Lacerda é outra: aumentar o efetivo da PM nas ruas após o fim da intervenção federal.

Na corporação, a escolha de Figueredo pelo governador causou estranheza. Pelas propostas de Witzel — de aumentar a “retaguarda jurídica” de policiais que matam em serviço e atirar “na cabecinha” de criminosos —, esperava-se que fosse nomeado um oficial da área operacional, preferencialmente um “caveira”, como são chamados os oficiais do Bope, tropa de elite da PM.

O ex-juiz, no entanto, optou por um coronel com perfil oposto: egresso da área de Educação da PM e ex-comandante do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cfap), Figueredo foi responsável pela implantação, em 2015, do novo currículo da PM, que aumentou a carga horária de disciplinas como Direitos Humanos e Polícia de Proximidade. Articulado, o coronel mais parece um CEO de empresa. Segundo oficiais próximos, Figueredo adapta recorrentemente jargões do mundo corporativo — como “gestão” e “planejamento” — ao vocabulário policial.

A indicação

Logo após a eleição, durante reunião com generais da intervenção, Witzel recebeu sugestões de nomes que poderiam comandar a corporação. Figueredo não estava na lista. Nos bastidores, comenta-se que a nomeação foi fruto de uma indicação de peso: Alexandre Abrahão, juiz do 3º Tribunal do Júri da capital, amigo em comum de Witzel e Figueredo. Abrahão, considerado um magistrado linha-dura, é um dos principais interlocutores do governador eleito. Os dois se falavam recorrentemente mesmo antes da eleição. Já Abrahão e Figueredo são amigos há mais de uma década. Abrahão nega ter tido influência na escolha.

Os planos

Na avaliação de Figueredo, a redução da criminalidade em 2018 se deve, sobretudo, ao aumento da presença de policiais e viaturas na rua durante a intervenção. Para manter os números na descendente, o futuro secretário já se movimenta nos bastidores para conseguir a prorrogação do decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) até outubro do ano que vem, quando vão se formar 800 PMs incorporados este ano. Por isso, desde já, ele tenta negociar a permanência dos militares no estado no início do governo.

O coronel também quer garantir o pagamento do Regime Adicional de Serviço (RAS), para que PMs trabalhem para a corporação em suas folgas, e aumentar a presença de policiais de UPPs nos bairros. Durante a intervenção, Figueredo ocupou o cargo de coordenador de Polícia Pacificadora. Desde que assumiu, cinco unidades tiveram atividades encerradas.

UPPs

Como secretário, o enxugamento das UPPs vai continuar. No entanto, Figueredo diz a amigos que ainda acredita no projeto e que a maioria das unidades será mantida, com uma mudança relevante: policiais lotados em UPPs poderão patrulhar áreas fora das favelas, para aumentar a segurança dos bairros vizinhos.

Enquanto aliados elogiam sua ponderação, opositores de Figueredo argumentam que falta experiência ao futuro secretário.

— Na minha opinião, é um nome sem expressão, não conhece a PM. Sem a Secretaria de Segurança, a PM vai ficar exposta e precisava de um nome de peso, uma unanimidade. E ele está longe disso — afirma um oficial da cúpula da corporação.

Trajetória na PM

Antes de ser nomeado, Figueredo não colecionou muitos feitos em sua trajetória na PM: entre os oficiais, é conhecido por ter sido instrutor de Educação Física da Academia Dom João VI, que forma o oficialato da corporação. Além do Cfap e da CPP, Figueredo comandou o 37º BPM (Resende) e o 18º BPM (Jacarepaguá) — unidade da qual esteve à frente por mais tempo, de fevereiro de 2015 a fevereiro de 2018.

No comando do batalhão de Jacarepaguá, não conseguiu conter o aumento da violência. Em 2015, a região registrou, segundo dados do Instituto de Segurança Pública, 369 roubos de carro. Em 2017, ainda sob seu comando, foram 804, um aumento de 117%. No mesmo período, o número de roubos de rua — soma de roubos a pedestres, de celulares e em coletivos — também duplicou. Já as mortes em confronto com a polícia triplicaram: passaram de oito para 25.

A permanência de três anos no 18º BPM, incomum na corporação, é creditada à sua boa relação com os moradores do bairro, construída através das redes sociais. Logo que assumiu, Figueredo criou um perfil do batalhão no Facebook, que ele mesmo controlava. Pelo canal, recebia denúncias, elogios e críticas de moradores — todas respondidas pelo oficial. A conta hoje tem 40 mil seguidores — um recorde entre todas as páginas de batalhões da PM na rede social.