Assustados com mortes, motoristas de apps como Uber e 99 ameaçam greve

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Assustados com mortes, motoristas de apps como Uber e 99 ameaçam greve

2019-01-15T12:36:22+00:0015/01/2019 12:36|Categorias: Brasil, Mobilidade|Etiquetas: , , |Nenhum Comentário

Assustados com mortes, motoristas de apps como Uber e 99 ameaçam greve

Casos recentes envolvendo mortes de motoristas de aplicativos como Uber, 99, Cabify e outros têm feito trabalhadores do serviço cogitarem uma paralisação para chamar a atenção da segurança das plataformas. O UOL Tecnologiaapurou que um movimento já está marcado para ocorrer nesta segunda (14) no Rio Grande do Sul, enquanto outros podem acontecer em diferentes cidades do país nas próximas semanas.

A reclamação principal de motoristas envolve mortes de motoristas supostamente cometidas por passageiros cadastrados nas plataformas que chamaram corridas pelo aplicativo. Dois casos envolvendo a Uber recentemente chamaram mais atenção: a morte de uma motorista no Rio de Janeiro e a de outro no Rio Grande do Sul, Estado que tem a primeira manifestação programada.

“Queremos evitar mortes de motoristas, não prejudicar passageiros. A ideia principal é chamar as plataformas para as responsabilidades deles quando colocam um assassino com ficha criminal no aplicativo. Não aceitamos isso. Queremos que conversem com a classe e façam ajustes para deixar a gente menos vulnerável”, afirmou ao UOL Tecnologia Joe Moraes, presidente da Alma-RS (Associação Liga dos Motoristas de Aplicativos no Rio Grande do Sul).

De acordo com Moraes, o movimento é chamado por WhatsApp e redes sociais. A intenção é que motoristas não loguem no aplicativo e participem de ato em Porto Alegre com alguns trajetos a pontos estratégicos da cidade. Ele aponta que outros municípios da Região Metropolitana local e do interior gaúcho também podem aderir.

O ato vem após a morte de Paulo Junior da Costa, que desapareceu na noite de Réveillon e foi encontrado morto em Santa Catarina após aceitar uma corrida, segundo as primeiras investigações apontadas pelo jornal Zero Hora. A Alma-RS diz contabilizar cinco mortes do tipo nos últimos seis meses no Estado.

Outro caso ocorreu no Rio de Janeiro. De acordo com o jornal Extra, uma mulher que trabalhava como motorista da Uber foi encontrada morta em seu carro no último dia 8. A Polícia Civil diz que o criminoso teria solicitado o serviço da motorista e ainda estuprado a mulher antes de cometer o crime – investigações seguem em andamento e existe a possibilidade de que o passageiro fosse conhecido da vítima. A Uber lamentou a morte a afirmou que o usuário envolvido foi banido.

Mais protestos

Além do protesto no Rio Grande do Sul, outros movimentos podem ocorrer pelo país nas próximas semanas. Em grupos de WhatsApp, uma mensagem encaminhada entre motoristas, a qual o UOL Tecnologia teve acesso, convoca para uma suposta paralisação da categoria no dia 20 de janeiro. Nem todas as associações, contudo, concordam com a greve.

“Algumas querem, outras não. Umas querem uma data, outras outra. Não teve consenso. Alguns motoristas independentes e algumas associações defendem a paralisação. Nós da Amasp queremos que o motorista trabalhe e ganhe dinheiro, paralisar significa deixar de ganhar dinheiro e isso é ruim para o motorista”, relata Marlon Luz, vice-presidente da Amasp (Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo.

Em outros momentos, houve tentativas de manifestações sem grande adesão, segundo Marlon. A solução da Amasp, por exemplo, será tentar conversar com as Secretarias de Segurança Pública e com os aplicativos. O tamanho da abrangência e a adesão em Estados com associações que defendem a paralisação, como no caso do Rio Grande do Sul, são incertos.

Presidente da Alma-RS, Joe Moraes acusa ainda aplicativos de darem descontos para usuários realizarem corridas na segunda-feira (14), dia da paralisação. Isso seria, para ele, uma tentativa de enfraquecer o movimento.

Exigências de motoristas são polêmicas

No geral, as mobilizações são uma tentativa de pressionar aplicativos a adotarem algumas medidas de segurança exigidas por parte de motoristas. O movimento não visa um aplicativo ou outro, mas todos em geral. As principais demandas são:

– cadastro mais rigoroso de passageiro, como é para motoristas (atualmente, passageiros só precisam de nome, email e telefone, basicamente)
– mostrar endereço da corrida, não apenas área
– deixar motorista escolher se quer aceitar dinheiro na plataforma (caso da Uber, 99 já tem isso e Cabify só aceita cartão)
– mostrar a foto do passageiro (Cabify já tem)
– pedir senha na hora que o usuário solicita uma corrida para evitar que criminosos façam pedidos com celulares roubados

As companhias, atualmente, dizem contar com equipes focadas em segurança e também com inteligência artificial que é capaz de prever crimes no aplicativo, como no caso da Uber e da 99. O presidente da Alma-RS, contudo, questiona a eficiência dessas políticas.

Que inteligência é essa que coloca assassino no carro? Se puser mais mecanismos plausíveis, achamos que vai funcionar. Isso vale para o motorista e passageiro, no Uber Juntos como o passageiro vai dividir com outros sem saber quem são?

Joe Moraes, presidente da Alma-RS

As medidas sugeridas, contudo, são polêmicas. Ações como mostrar foto de usuários, endereço e a escolha de não aceitar dinheiro podem excluir pessoas de baixa renda e causar até preconceito contra áreas ou tipos sociais nas ferramentas – Joe nega e alega que sempre terá um motorista para atender diferentes tipos de pessoas e que cada um tem sua escolha. Mas nem todos concordam.

“A grande maioria dos motoristas gostaria de saber o destino do passageiro ou de ter uma opção de aceitar ou não dinheiro. Mas isso é questionável, a 99 oferece e tem muitos crimes também. Alguns exigem também que o aplicativo mostre a foto do passageiro e os aplicativos se negam por medo de que haja uma seleção. Para os apps é ruim e para experiência dos passageiros também, até entendo quanto a isso”, opina Marlon Luz, da Amasp.

O que dizem os aplicativos

Em contato com o UOL Tecnologia, a Uber afirmou que “lamenta que motoristas parceiras sejam vítimas da violência e brutalidade que permeiam nossa sociedade”, se solidarizando com as famílias. A empresa ainda se colocou à disposição dos órgãos de segurança para colaborar com as investigações e apontou que está sempre estudando medidas para contribuir com a segurança de usuários e motoristas.

“Ao longo do ano de 2018, a Uber passou a adotar no Brasil o recurso de machine learning, que usa tecnologia para bloquear viagens de risco, e lançou uma ferramenta de segurança para motoristas, incluindo um botão de pânico para acionar a polícia. A Uber também lançou em agosto uma ferramenta que inclui a informação de qual será a forma de pagamento antes de o usuário embarcar”, diz a empresa.

A companhia aponta que ouve os motoristas, mas busca o equilíbrio com a experiência dos usuários. A Uber ainda cita que exige do usuário que queira pagar somente em dinheiro informações extras como CPF e data de nascimento, dados checados com a Receita. O app afirma também rastrear as viagens por GPS, oferecer opção de compartilhar viagem e número de contato para motoristas, além de lembrar ter criado um centro em São Paulo com foco em segurança – ao custo de R$ 250 milhões, conta com até 150 especialistas.

Já a 99 relata estar sempre aberta ao diálogo com os motoristas e passageiros, dizendo respeitar o “direito à liberdade de expressão e manifestação”. A companhia se diz ciente dos “graves casos” e se solidariza com as vítimas e famílias. O app ainda afirma lamentar “profundamente” qualquer caso de violência e diz colaborar com investigações.

“Em relação à segurança, a 99 montou uma equipe especialmente dedicada, composta por mais de 70 pessoas incluindo ex-militares, engenheiros de dados e psicólogos. O time trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, cuidando exclusivamente da proteção dos usuários. Esse trabalho, que também escuta e avalia as críticas e sugestões dos condutores, foi responsável pela redução em 82% dos incidentes na plataforma em 2018”, afirma a empresa.

A 99 lembra também algumas tecnologias recentes aplicadas pela empresa. Entre elas, estão câmeras de segurança nos veículos conectadas com uma central, inteligência artificial que analisa as chamadas e veta as de risco, mapeamento de áreas de risco para motoristas, exigência de CPF e cartão de crédito antes da primeira corrida para passageiros, canal de atendimento para incidentes de segurança, opção dos condutores não aceitarem dinheiro, seguro para todos os usuários e treinamento para condutores com dicas de proteção.

A Cabify, por sua vez, diz “reconhecer o direito da livre manifestação pacífica dos brasileiros”. Além disso, aponta que não tem registro de nenhum latrocínio envolvendo motoristas parceiros na sua plataforma. A empresa diz registrar informações em todas as etapas de uma viagem (pedido, aceitação do motorista, finalização e pagamento), inclusive por GPS. Com esses dados, diz poder oferecer informações a autoridades, respeitando o Marco Civil da Internet.

“A empresa reforça sua preocupação com a segurança de motoristas e passageiros, e desenvolve continuamente tecnologias para reduzir os riscos de segurança de todos. A Cabify solicita que os motoristas parceiros relatem toda e qualquer situação atípica e suspeita para o suporte da Cabify, disponível 24 horas nos 7 dias de semana. Para os motoristas, oferece também contato para emergências”, aponta o app, que ainda diz oferecer seguro para casos de morte ou invalidez para todos dentro do veículo, além de cobrir despesas médicas.

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