Uma das maiores favelas da cidade do Rio de Janeiro já tem o seu próprio app de transporte. Uber e 99 estão proibidos de circular na região.

A favela de Rio das Pedras, dominada pela mais antiga milícia do Rio de Janeiro, tem desde março um aplicativo exclusivo de transporte. A ferramenta comunitária é turbinada pela ameaça a motoristas de outros apps que acessam o bairro.

O domínio é tanto que a Uber decidiu vetar chamadas originadas em Rio das Pedras.

O serviço da RP Driver, como é chamado, existe há pelo menos um ano. Até março, era acionado em um grupo de WhatsApp. Há dois meses, foi criado o aplicativo para automatizar a demanda.

O app foi desenvolvido pela Driver Machine, que faz plataformas de transporte personalizadas em todo o país para grupos de motoristas que tentam fugir das taxas dos grandes serviços —a empresa diz que os contratos a impedem de divulgar dados de clientes.

Investigadores ouvidos pela Folha desconheciam o aplicativo. Afirmam que um serviço do tipo dificilmente é oferecido sem participação ou anuência paga da milícia.

A Folha tentou contato com representantes do app, mas eles não responderam a telefonemas nem a mensagens.

A ferramenta é oferecida também na favela da Muzema e em outras comunidades da região, todas dominadas pela mais antiga milícia do Rio.

A Folha conversou com moradores de Rio das Pedras, Muzema, Tijuquinha e outras regiões ocupadas. Alguns deles relatam ameaças a motoristas de aplicativos tradicionais e o avanço de transportes ligados a criminosos.

“Outro dia fui à farmácia ao lado do supermercado e pedi um Uber. O Uber chegou, mas não parou e foi para longe. Andei até o motorista, que falou que a milícia não deixa pegar ninguém perto do mercado”, disse uma moradora de uma região controlada pelas facções, que pediu anonimato por medo.

“Uma senhora chamou um Uber, e os caras da milícia tiraram as compras dela do carro e disseram que se não fosse no carro controlado por eles não ia com ninguém”, continuou outra pessoa da mesma região.

Fonte: Folha